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O Diabo, o desejo e o Juízo



Tudo o que existe na vida está descrito nas cartas do Tarô, desde a gestação até a morte e além dela, como na carta XX, O Julgamento, que trata do Juízo final.

Uma das cartas mais temidas e ao mesmo tempo a que desperta mais curiosidade é o arcano XV, O Diabo. Refiro-me a ele no aspecto pagão, representado por Pã, Dionísio, divindades que assustam menos pois têm as suas características positivas mais evidentes do que no mito das religiões posteriores, que somente atribuem a ele aspectos negativos. Estes deuses nos falam de aspectos de nós mesmos que nos assustam. Aquilo que é temido em nós mesmos, mas que também é o que faz nossos olhos brilharem e que pode ser o que mais nos faz sentir vivos: o desejo, a alegria, o prazer.
Nossos desejos são inatos, já nascemos com eles, e vão sendo despertados ao longo da vida, de acordo com cada fase hormonal que passamos.

Só este lado biológico dos desejos já assusta e ao mesmo tempo desperta interesse: como assim não somos só pensamento, razão, espiritualidade? Somos desejo, também? Temos em nós algo completamente fora de controle, “o que não tem vergonha, nem nunca terá, o que não tem juízo...”, como dizia a canção, referindo-se ao sexo, ainda que em nenhum momento da letra ele seja nomeado.
Aquilo que não se posta em redes sociais, mas que todo mundo conhece e, como dizia outra canção: “se não conhece, ainda vai conhecer”. E tomara que conheça, porque é o maior prazer que o corpo humano pode experimentar; e é o que move o mundo, junto com o dinheiro, outra necessidade tentadora exposta nesta carta. O sexo é o que perpetua as espécies, garantindo a continuidade da vida. E o dinheiro a mantém e dá qualidade.

Mas, falando sobre o sexo, são exatamente as sensações de prazer imensas que ele proporciona que causaram e causam sempre tanto temor de que se perca a razão por elas.
Sem dúvida, há que se dosar o quanto se deixa levar pelo sexo, há que restringir a ambientes, a número de pessoas, a tipos de pessoas com as quais se pode ou não praticá-lo e mesmo falar sobre ele. Há que se proteger de doenças e impor limites sobre com quem se pode praticá-lo ou não, limites por razões de saúde e também morais. Estes são domínios da carta O Julgamento, o arcano XX, que retrata o Juízo Final e fala sobre nosso discernimento e nossa responsabilidade sobre o que fazemos, pois toda causa gera uma consequência.

Quando há algum desequilíbrio entre estes limites, eles podem ser ultrapassados, inclusive porque a maioria deles não são naturais, são socialmente ensinados. No início dos tempos, pelas religiões apenas; hoje, por elas e também pela escola, além da família. E precisam ser, de fato, ensinados, por infinitos motivos, principalmente os relacionados a incestos. Sem dúvida, até alguns animais recusam incestos, muitas vezes incorrendo neles, por força física do maior animal; por isso outro impedimento social muito legítimo e fundamental: não se pode nem deve forçar alguém a fazer sexo. Pode-se encenar isso como fantasia, mas não de fato.

Por estes exemplos, podemos dizer que tem que haver limites ao poder dos instintos; e equilíbrio com outros instintos, inclusive, como o de autopreservação, e outros conceitos que também ensinaram que com este pode, com aquele, não pode. Ainda que estes limites também sejam transpassados por algumas pessoas em certas ocasiões.
Colocadas as regras, desde que se esteja dentro de margens de segurança razoáveis, precisa sobrar ainda – e sobra! – um leque enorme de possibilidades de ser muito feliz com seus instintos.
O Diabo não fala de amor romântico, mostra que o sexo é uma coisa, o amor é outra. Elas podem acontecer juntas ou não. Ele trata da atração, do desejo carnal, físico, da liberdade de usufruir momentos de prazer intenso em uma existência curta, onde a capacidade deste prazer dura menos ainda do que a vida, portanto, por que abrir mão dele?
Às vezes, precisa-se de ajuda para aprender a controlar ou a liberar e entrar em harmonia com essa energia tão poderosa e inconsciente. A energia vital, mostrada na carta Ás de Paus, dos arcanos menores, que fala do desejo, dos impulsos e da excitação.
Desde que restrito aos contextos adequados, aos momentos adequados e com as pessoas adequadas, pode ser encarado como um força divina, de tão intensa que é. Pode ser utilizado inclusive como forma de contato com Deus, com o plano superior, pois a dimensão de prazer é tão grande que dá a noção de que se existe além do corpo físico, ou seja, traz para o plano concreto o que poderia ser apenas uma hipótese filosófica. No sexo, conceitos como expansão de aura e interação com outro ser humano, tomam corpo, acontecem de fato. Saímos da teoria e comprovamos em sensações físicas a centelha divina da vida. De tão intenso fisicamente, chega a criar o amor, pois é impossível não se adorar quem lhe dá tanto prazer. Mas aí, o ser humano também toma suas providências para ensinar com quem se pode exercer socialmente este amor ou não. Quem são os parceiros adequados em termos de critérios mais ou menos corretos em termos de compatibilidade, de possibilidade de construção da vida, e etc.
Em geral, os pais começam essa tarefa de impor limites e quando eles também o tiveram de forma saudável, tendem a também passá-los para os filhos de forma saudável. O problema é que nem sempre é assim. Tem que se ter muito cuidado em não reprimir demais os filhos, tornando cada geração um pouco mais livre do que a antecedeu. Usar bem o juízo, a razão, mas não o moralismo excessivo, a repressão dos desejos naturais de cada um. Entre o Diabo e o Julgamento, está a liberdade. Liberdade de escolha e de consciência, que é como se cria os valores individuais menos opressivos e que vão se tornando coletivos com o passar do tempo. Que esta liberdade alegre, mas responsável, possa conduzir nossas vidas.

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