segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A passagem secreta

Depois de um tempo, conseguimos perceber os momentos que fizeram a vida valer. A memória guarda apenas o necessário, fixa em molduras as cenas mais belas para aquecer o coração e trazer sorrisos quando nada no presente consegue, no inverno dos fatos.
Lembramos de algo que vivemos e nem demos tanta importância mas que, ao longo da jornada, vai permanecendo e com isso, nos mostra seu significado. O que foi bom sempre poderia ter sido melhor, mas não tem problema, vale pelo que conseguiu ser.
Por isso é bom valorizar cada segundo de abraço, de beijo, de sorriso, de emoção boa. Fazer questão de tatuar na mente na hora, acelerar a catalogação como “momento marcante”.
Tudo isso foi trazido por saber que mais alguém lembrou. Que quem estava junto também gostou, também tem o sorriso ao lembrar. De vez em quando somos lembrados de coisas que aconteceram num passado remoto, é a hora de reaquecer o peito, de abrir o sorriso, de ganhar novamente o mesmo presente.
Morei em uma casa durante a maior parte dos meus anos de juventude. Hoje, ela está abandonada, e parece que não está perto de resolver esta situação, por mais que eu queira. Hoje soube dela, algo mais desmoronou lá dentro. Mas, horas depois, recebi um desses bilhetes de lembrança de um momento bem legal que vivi nessa minha casa antiga. Além do efeito em mim, espero que isso cause um efeito na casa; que, de alguma forma, ela saiba que foi esteio de coisas boas também, pois não costumamos lembrar das partes boas, as ruins prevalecem na memória.
Espero que a situação da casa em que eu vivi se resolva bem. Ela merece.

A minha casa tinha uma passagem secreta. Era uma das coisas que eu mais gostava sobre ela, e que mais impressionava as pessoas queridas que eu levava lá. Pessoas que davam valor a passagens secretas, a quartos escondidos.
Tinha toda uma segunda casa escondida dentro de um armário. Era muito legal ver a cara das pessoas quando eu ía até o quarto que parecia ser o fim da casa, dava um tempo e abria a porta maior do armário. Sempre foi e sempre vai ser engraçado a reação que aquela abertura de porta causava ao revelar um outro quarto e, depois dele, uma cozinha e um banheiro...
Não moro mais lá há quinze anos. A passagem está em ruínas, mas é bom saber que está intacta na memória de mais pessoas além de mim.
Afinal, o que seria de uma mente sem pelo menos uma passagem secreta.
Quem sabe eu consigo morar em outra casa com outros quartos escondidos.
Tomara.

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